Similton Fidelino

O MAIS INTELIGENTE IMPRUDENTE

Que belo mar, tão limpo e cristalino

Coberto de garrafas 

O homem, com seu gesto tão divino

Decidiu decorar a naturesa

 

Atira o seu plástico às correntes

E sente que cumpriu sua missão

Afinal, para almas tão conscientes

O mar é uma extensão do seu caixão

 

Os peixes já dispõem de novas casas

Feitas de sacos, latas e embalagens

E as ondas, sufocadas sob tais asas

Aplaudem o lixo e as boas viagens

 

A tartaruga nada entre os resíduos

Confunde o seu alimento com plástico

E o homem, tão prudente nos seus juízos

Considera o seu gesto democrático.

 

As praias vestem sacos coloridos

O mar recebe ofertas sem cessar

Os corais, outrora tão floridos

Aprendem com o lixo a decorar

 

E o homem ergue a voz, cheio de orgulho

«Protejo a natureza com paixão

Enquanto despeja, sem nenhum barulho

Mais plástico no rio em frente ao portão

 

Que grande inteligência, que talento

Transformar água viva em podridão

E chamar de progresso, a cada momento

À lenta destruição da criação.

 

Um dia, o mar devolverá o presente

Sem laços, sem embrulho, sem perdão

E o homem há de olhar, surpreendido

O reflexo do lixo da sua própria mão