Que belo mar, tão limpo e cristalino
Coberto de garrafas
O homem, com seu gesto tão divino
Decidiu decorar a naturesa
Atira o seu plástico às correntes
E sente que cumpriu sua missão
Afinal, para almas tão conscientes
O mar é uma extensão do seu caixão
Os peixes já dispõem de novas casas
Feitas de sacos, latas e embalagens
E as ondas, sufocadas sob tais asas
Aplaudem o lixo e as boas viagens
A tartaruga nada entre os resíduos
Confunde o seu alimento com plástico
E o homem, tão prudente nos seus juízos
Considera o seu gesto democrático.
As praias vestem sacos coloridos
O mar recebe ofertas sem cessar
Os corais, outrora tão floridos
Aprendem com o lixo a decorar
E o homem ergue a voz, cheio de orgulho
«Protejo a natureza com paixão
Enquanto despeja, sem nenhum barulho
Mais plástico no rio em frente ao portão
Que grande inteligência, que talento
Transformar água viva em podridão
E chamar de progresso, a cada momento
À lenta destruição da criação.
Um dia, o mar devolverá o presente
Sem laços, sem embrulho, sem perdão
E o homem há de olhar, surpreendido
O reflexo do lixo da sua própria mão