Guardei pra depois o que era agora,
E chamei de prudência o que era medo.
Acumulei horas como quem tesora
Moedas de um país que virou segredo.
Que economia estranha a do covarde;
Poupa o momento pra não gastá-lo,
Chega cedo em tudo pra sempre ser tarde,
Guarda a palavra pra nunca dizê-la.
Eis o que range e insiste nos dentes:
Tenho calendários, relógios, memórias,
Sei de cor as datas dos momentos urgentes;
E ainda assim, nas horas mais inteiras,
Oferto ao amanhã as horas de hoje
E colho no depois apenas poeiras.