*O burguês e eu*
*Yannick Frederico*
Tuas horas caminham
Nas plumas dos anjos,
Sem asas, sem metas.
Meus dias rebolam
Nas lágrimas dos profetas,
Em brasas e banjos.
Gabriel dança contigo.
Moisés chora comigo.
Teu mundo valsa,
O meu samba.
Teus tecidos incendeiam
A noite dos atores;
O meu, despercebido,
Se eclipsa entre tremores e atrito.
Férias em Paris
Te roubam a vista.
Minha janela de muros
Dilata a íris.
Tu, cego opulento,
De paisagem mansa,
És transformado em monumento
E morres vivo sem cobrança.
És nome de rua
E andas no limbo.
Do teu plácido castigo
Sou da sola o amigo.
Eu danço nas pedras...
Sem afagar os pés,
Vejo Marias e Josés
Acendendo suas velas,
Doando-se sem cálculo,
Sem esperar amizades
Com juros exorbitantes.
Minhas ações
Estarão cotadas
No alto
Da bolsa dos amores
Cintilantes.
Teu *pedigree* ilustre
Alcança o Éden;
O meu só conhece
Embuste e anonimato.
Ainda que mores lá no cume
Da saia do Senhor Deus,
De ar trancado vives,
Com a colher sempre
À boca do assassinato.
Meu jejum
É repleto de liberdade.
No antro da dor,
Exalto a verdade,
Enquanto tu, todo contente,
Não podes falar o que sentes.
Acordas e tens o enredo do dia;
Minha trilha é suspense e agonia.
Foges do tédio imaginário,
Enquanto eu vendo barato
Esta jovem poesia
Para o silêncio funerário.
Podes comprar
A saúde puritana,
Mas jamais terás
A morte bacante!
É certo, idólatra de Pluto:
Não morrerás hoje, nobre tratante;
E, por isso, estamos todos de luto.
E eu?
Eu estou partindo,
Sem heráldica nem colher.
Nestas noites macabras,
Jantarei com os antepassados;
Meus e teus,
Nas ossadas
Da Santa Sé —
E haverá festa
Na chaminé.
Esparso e fumejante,
Calmo e galopante,
Tocarei o teto azul
E poderei dizer ao Criador
Sem labéu, sem temor:
“Neste idílio seleto,
Recuso entrar.
O Santo da terra
Morre sem lugar no céu.
Minha vida foi um veículo
Do tentar.
Uma régua
Para rombos contar.
No meu perambular,
Entre dois pontos,
Entre dois tombos,
Paraíso insurreto
Já sou.”
Eis a alma profana
Que o dinheiro
Não domesticou,
Dessacralizou o lucro
Para tornar sacrossanto
O corpo.