A carne hesita na beira da laje.
Abaixo, não há chão nem voo:
apenas o vento cru da escolha,
a vertigem de poder tombar
ou de continuar de pé contra o nada.
O peito pesa.
Não é o ferro dos anos que encurva a espinha,
mas o cálculo mudo do que se há de ser.
Poderia eu deitar-me na vala dos dias,
chamar de paz a inércia dos covardes,
e rir com os que fingem viver.
A sombra fita a sua origem.
Cansa inventar desculpas para as próprias mãos.
Cansa fingir que a cela tem tranca por fora,
quando a chave enferruja nos dentes
e a porta sempre esteve aberta
para o escuro que ninguém quer ver.
O abismo não nos empurra.
Ele espera o veredito da vontade:
ou a queda vulgar de quem se anula,
ou o salto cego, estilhaçado e lúcido,
que arranca do silêncio de Deus
a prova viva desta maldita liberdade.