Thelma Souza

Se você queria voar, não precisava cortar minhas asas

Eu te ensinei  a voar.
Ajudei a fortalecer suas asas, acompanhei seus primeiros movimentos, estive ao seu lado durante os ensaios de voo. Vi seus medos, suas inseguranças e também a coragem que, pouco a pouco, foi nascendo em você.
Se agora você achava que era hora de voar sozinho, tudo bem.
Eu sentiria saudades, é verdade. Talvez meus olhos acompanhassem seu voo até o horizonte, tentando guardar cada movimento das suas asas. Mas eu ficaria ali, admirando você voar com a intensidade que sempre desejei que tivesse.
Porque quem ama de verdade não deseja que alguém permaneça preso ao seu lado.
Mas deseja que um dia mesmo tendo coragem de partir, talvez escolha permanecer voando ao nosso lado.
Se queria voar, bastava apenas um beijo de despedida.
Eu teria entendido.
Talvez doesse, talvez eu chorasse, talvez a casa ficasse silenciosa depois da sua partida. Mas ainda assim, eu teria orgulho de saber que você estava voando graças às asas que um dia ajudei a fortalecer.
O que eu nunca vou entender é por que, para conquistar o céu, você precisou cortar as minhas asas.
Você poderia ter simplesmente partido.
Eu teria ficado aqui, aprendendo a lidar com a saudade, enquanto você aprendia a lidar com o vento.
Mas você não quis apenas voar.
Você quis voar e me impedir de voar também.
E talvez essa seja a parte mais difícil de aceitar: perceber que, enquanto eu preparava você para conhecer o céu, você se preparava para me deixar sem chão.
Se você queria voar, tudo bem.
Só não precisava destruir as minhas asas para provar que as suas estavam prontas.
Mas esse não é o meu fim.
Porque, do mesmo modo que um dia aprendi a voar, agora estou aprendendo a caminhar.
E descobri que o impacto de uma caminhada não é menor do que o de um voo.
São apenas movimentos diferentes para chegar ao mesmo destino.
Talvez eu não atravesse mais os céus como imaginei. Talvez precise percorrer caminhos que nunca planejei, em passos lentos, aprendendo novamente a confiar no chão.
Mas eu vou.
Um passo de cada vez.
Com ou sem asas, eu continuarei avançando.
Porque meu propósito nunca esteve preso às minhas asas.
As asas eram apenas uma das formas de chegar até ele.
E se alguém foi capaz de cortá-las, não será capaz de cortar o caminho que existe dentro de mim.
Eu ainda tenho pernas para caminhar, olhos para enxergar novos horizontes, coração para recomeçar e coragem para seguir.
Você escolheu o céu.
Eu escolhi continuar.
E talvez, no fim, essa seja a minha maior vitória: descobrir que eu não precisava das asas que você cortou para chegar onde Deus ainda está me levando.
Com asas ou sem elas, eu vou chegar.
Talvez não pelo caminho que imaginei.
Talvez não no tempo que planejei.
Mas chegarei.
Porque algumas pessoas foram feitas para voar.
E outras, depois de perderem as asas, descobrem que foram feitas para algo ainda maior:
continuar caminhando, até encontrar o próprio propósito.  

                      (Thelma Aparecida de Souza)