Amo outubro.
Não está claro.
Quase.
E quase me basta.
As flores deviam brotar.
Quando não chove.
O sol aquece
a lembrança do verão.
O mundo não cumpre
pequenas ordens minhas.
No café, disseram
uma coisa horrível:
sou uma bruxa
presa no corpo
de uma sonhadora
que sonha ser poeta.
Aceitei sem açúcar.
O café estava bom.
Uma felicidade solitária
invadiu-me
em amor.
Sou um espírito livre:
gosto desta vida simples
e meio decadente.
O anjo também.
Ele não pede explicações.
A alma é uma casa
com a porta aberta
para o que não vem.
Toda profundidade
é uma loucura
com boas maneiras.
Não sou trágica.
Sou um erro
bem vestido.
O sol aparece
porque é um deus.
A chuva desculpa-se.
Outubro obedece.
A volta não exige revolta.
Exige que eu termine o café.
A tarde cai
como um vício decadente.
O mundo gira
em meu abismo
que finge não notar
o escuro.
Eu giro com ele
por deboche.
Até a decadência
tem seu esplendor.
Em seu fim.
O deles chega
com forte alucinação.
O café esfria.
Outubro esfria
devagar
e sinto vontade de pular.
Por distração.
Outubro
de Ayalah Verônica Berg