Fábio Marinho

O velho e o poeta

Eram dois, sentados. Mesas separadas...

Um, um tanto velho e o outro era poeta!

Ambos a pensar, com vinho em suas taças.

Um lembrava a vida de paixões secretas,

O outro celebrava o mundo e ao céu voava...

Um, enquanto velho, rico de experiências,

Outro em sua lira e o peito de impaciências,

Ambos com histórias, fotos pela estrada.

 

Já de madrugada, vinho e cumprimentos,

Um convida, um outro senta e a prosa vem!

Mas o velho pensa:” Novo e já bebendo?”

E o poeta, luz de sol, não se contêm...

Ambos brindam sem cuidados com o tempo.

Tosco, o velho xinga a vida e chora a dor

E o poeta, ébrio, sente e canta o amor,

Uma lágrima é a flor, outra é o lamento:

 

– Olha filho, a vida deve ser pensada!

- Mas por que, se somos alma e coração?

- Não te iludas! Vês as rugas arranhadas?

- Sim! Pra mim lhe são registros de ouro, não?

- Ora, amigo! São paixões sutis, guardadas!

- Mas, então, que desabrochem feito as flores!!

- Não! Abertas, me trarão mais dor, rancores!

- Mas a vida só se finda quando acaba...

 

Tenso, o velho cala, bebe um gole e acena,

Paga a conta e, cabisbaixo e lento, sai...

O poeta pensa, quieto, pela cena

De repente, sente a angústia e seus sinais,

Pede um vinho, um guardanapo e puxa a pena,

Seca a lágrima que escorre quente e desce,

Olha em volta, se lamenta e, então, escreve:

“Nada vale a pena se a alma for pequena...”