A companhia saúda.
São o olho que só vê ratos.
Eles olham para o abismo:
única pátria que lhes coube.
Oferecem veneno, reparos, mentiras.
Visão de proprietário.
Águas calmas:
profundezas em propaganda.
Grande navio, teme a escala pequena.
Sereias não dão garantia.
Na água, até o canto é contrato curto.
Ansiosos para ver o fundo.
Prometem não gritar.
Depois de afundados,
a descida é serena.
Nem toda alma chega.
Algumas ficam no mar,
com frio de coisa.
São o centro do naufrágio.
Sem corrida, o mar não saberia iludir.
O horizonte consulta o tédio.
O nada lhe deve favores.
Nascer: hipoteca de sombra.
Viver: consertar o casco com fé.
A vontade morde a própria onda.
Ser: ferida aberta ao vento.
A consciência: clarão sobre destroços.
Que bom que os ratos não pagam passagem.
Nós pagamos.
A esperança é taxa extra.
Meu desprezo é uma cortesia.
Cair é meu único luxo.
No declive, sinto o alto.
A vertigem me coroa.
Ébrio de gravidade,
o absurdo é nosso sócio.
Não espero porto.
Espero a onda.
A revolta é sal nos lábios.
No fundo, recomeço.
Resta a beleza podre das bandeiras.
O crepúsculo embolorou nos metais.
Um perfume de âncora adoece o ar.
E o silêncio, por fim,
aprende a afundar.
A Visão dos Sócios
de Ayalah Verônica Berg