No mármore firme de Michelangelo,
ergue-se a glória contra o gigante,
mas ao rés do chão, no silêncio e no zelo,
o tempo desenha seu traço constante.
É no calcanhar que o mistério se esconde,
onde o peso do corpo encontra a terra:
uma fina fissura que se aprofunda e responde
ao sopro invisível dos séculos em guerra.
A pedra dita imortal vai caindo em si,
revelando a ferida na própria estrutura.
Até a perfeição da estátua de Davi
carrega, na base, a sua rachadura.
Pois não há gigante nem herói de granito
que vença as dobras do tempo e da sorte;
no calcanhar rachado, num leve gemido,
o belo se curva à humana constante.