Tu dizes que sou incrível, mas me pergunto se ainda o dirias quando conhecesses os meus demônios.
Quando contemplasses minhas imperfeições, minhas ruínas e tudo aquilo que me esforço por ocultar sob a aparência de uma mulher inteira. Ainda me julgarias tão bela quando testemunhasses o meu declínio, sempre que a tristeza me toma pelos braços e me arrasta para as profundezas de mim mesma?
Ainda verias encanto em minha existência quando me encontrasses em minhas constantes visitas ao subsolo da inconsciência e da melancolia, onde meus pensamentos se tornam sombras e até a minha própria companhia parece difícil de suportar?
Dize-me, ainda me chamarias de incrível quando eu já não soubesse ser?
Quando a beleza cedesse lugar ao caos, quando a delicadeza desse lugar aos meus abismos e eu já não tivesse forças para disfarçar as rachaduras que me atravessam?
Ou será que tua admiração depende apenas daquilo que consegues ver à superfície?
Porque há em mim muito mais do que aquilo que mostro ao mundo. Há partes que nem eu ouso contemplar por muito tempo, recantos sombrios que aprendi a visitar em segredo, como quem conhece de cor os corredores de uma velha mansão assombrada.
E temo que, se um dia te conceder acesso a todos eles, descubras que a mulher que tanto admiras também é feita de coisas difíceis de amar.
Ainda assim, há uma pergunta que me assombra mais do que os meus próprios demônios:
continuarias a me achar bela se não houvesse em mim nada além da verdade?