Meu pior medo
Desmedido assombro
Frântico, inconcebível
Tosco, irremediável
Embala minh\'alma
A mera suspeita, suposição
De não te ter
Como eu tenho, e faço
Das tuas partes, teus pivôs
Cada ponto de prazer
Que aguarda, que espera
Ansioso, desejoso
Por meus dedos
Reencontro
E tu bem sabes, ninguém sabe
Como os botões afrouxam
Rendas se deslocam
E teu pudor desliga
Em poses nada castas
Que tão facilmente imponho
Na tua tez
Gemidos entrecortados
Doce melodia
Faz-me o auge, como Ícaro
Ascender-me-ei, em tua sebe
Derretido, decadente
Como um presságio
Celestial orgasmo
Não faço caso
Não ligo que escondas
Cada vez que me negas
Toda vez que sugeres
Arrepios me varrem
E os búzios predizem
Um coito audaz
Ah, mal te espero
Irrestrita, alastrada
Pela cama, entreaberta
Preenchida, incompleta
Clamando a semente
Chamando o torpor
Que nos completa
Rudemente te ponho
Num eco de instinto
No limiar, numa assíntota
Obcecado, acorrentado
Aos teus adornos, teus rompantes
Em algum lugar, em qualquer lugar
Onde sejamos um
Mesmo que depois acabe
Muito antes da carne
Éramos neutros, agora aquarela
Despretensiosos, quanto ao prazer
De se deixar levar, de se consumir
De ser o objeto indescritível
E intangível
Estados declarados em tuas pernas
Que me outorgo, que se promulgam
Conforme o dia, conforme o vento
Que nos circunda e arrasta
Das formalidades mais depravadas
E sacramentos entumecidos
De algum nirvana
Ascese que nos faça
E lave nossa alma, com excesso
Toda sujeira, agora organizada
Mosaico agridoce e nostálgico
Remontante e excitante
De dois egos dissolvidos
Num só vazio