Nas sombras de um tempo antigo e distante, Ergueu-se a poeira no alto do Golgotha, Onde a carne sagrada, sob o sol escaldante, A vida terrena aos poucos vertia.
Entre a multidão e o clamor do destino, Surgiu o soldado de olhar hesitante: Longino, cumprindo o intento divino, Portava a lança, fria e cortante.
Não buscou o desprezo, tampouco a vingança, Mas desferiu o golpe na carne ferida; O aço da haste, tornando-se a Lança, Tocou o mistério do Autor da Vida.
Do peito aberto, em dor e quebranto, Jorraram a água e o sangue sagrado. A ponta de ferro guardou aquele pranto, E o ferro mundano tornou-se consagrado.
Longino viu a luz no meio da escuridão, O poço da alma banhado em graça: A haste que fere tornou-se redenção, E a Lança do Destino atravessa a fumaça.
Ficou na história a lenda e o metal, Guardião dos impérios, relíquia do além; Pois onde a lança causou a ferida fatal, Nasceu o perdão que a todos convém.