Fazendo barquinhos de papel, chapéus também, queria voar em um aviãozinho também
Queria ser tanta coisa, os adultos perguntavam e perguntavam
Com seu carrinho, era bombeiro, com o celular era cientista
Só que tudo virou de ponta a cabeça, tudo virou um hematoma, tudo virou uma lágrima, tudo virou uma pedra
O mundo que devora os sonhos, não consigo me lembrar de nenhum deles
Alguns estão mortos, outros respiram por aparelho
Tudo o que interessa é quanto você ganha, nessa máquina de moer e de sobrevivência
Você não é diferente dos demais, acha que é especial? Acha que é diferente? Acha que aguenta um soco sem perder o dente?
Quando eu crescer quero um emprego, um que pague bem
Quando eu crescer vou ter um casa legal, um cachorro legal
Quando eu crescer quero ter uma família, uma esposa, talvez crianças também
Quando eu crescer eu vou fazer algo diferente, vou parar de pensar no futuro e me concentrar no presente
Pode me ouvir? Pode me orientar? Pode sentir? Posso delirar?
Só que eu mudei tanto, que há poucos traços do que era até ontem
Se ajoelhe e peça por perdão, seja empurrado por outra criança, enquanto chama pela mãe
Lembro que o sangue jorrava, enquanto sentia o nariz quebrado
Seja feliz, seja triste, nenhum deles se importam
Quando eu crescer quero pagar minhas contas, quero ter um sorriso mais feliz e menos sério
Sério, quando eu realmente vou crescer? Porque eu sempre soube que os adultos mentiram para mim...