Eu sou um monstro.
Aprendi a esconder minhas garras,
a controlar meus dentes
e a sufocar os gritos que habitam minha garganta.
Não porque fosse bom,
mas porque sabia que as pessoas temem
aquilo que não conseguem compreender.
Certo dia, uma senhora me encontrou vagando,
perdido entre as sombras do mundo.
Em vez de fugir, ela se aproximou
e me ofereceu um lar.
Disse que eu poderia ficar,
desde que aceitasse usar uma coleira
e me tornasse seu monstro de guarda.
E assim vivi por meses.
Protegia sua casa,
afugentava os perigos
e, aos poucos, aprendi a gostar
daquela pequena criatura humana
que não tinha medo de mim.
Até que, numa noite,
as correntes já não foram suficientes.
Meu lado mais sombrio despertou,
minhas garras feriram o que não deviam
e meus rugidos fizeram tremer
aqueles que antes sorriam ao me ver.
Naquela noite, todos voltaram a enxergar
aquilo que eu sempre tentei esconder.
Um monstro.
A senhora chorou ao abrir o portão.
Disse que eu precisava partir,
mas segurou minha coleira por alguns instantes
e prometeu que talvez, um dia,
eu pudesse voltar.
Ela ainda gostava de mim.
Eu conseguia enxergar isso em seus olhos.
E foi justamente por isso que parti.
Porque não suportaria ficar
onde minha presença causava medo.
Não depois de ter conhecido
o conforto de ser aceito.
Desde então, continuo vagando,
sem coleira, sem lar e sem destino.
Às vezes, penso na velha senhora
e na promessa que deixou para mim.
Talvez ela ainda espere que eu volte.
Mas não voltarei.
Não porque tenha deixado de amá-la
à minha maneira monstruosa,
mas porque não tenho coragem
de olhar nos olhos de quem um dia me acolheu
e descobrir que, agora,
também tem medo de mim.