Ayalah VerĂ´nica Berg

O FARMADOR DE AURA

 

Sonhei demais.
Erro meu.
Agora, a rotina me pede.
E eu deixo.
Ela tem mãos hábeis.
 
O mal não precisa de máscara.
Basta não olhar.
Basta o espelho.
Ele é vaidoso, o mal.
E pouco exige.
 
Já não caçam estrelas.
Guardam moedas no bolso
e à noite, sob o lençol,
negociam com o diabo
mais tempo.
 
Há uma diferença amarga
entre o que se é e o que se finge.
O ser exige o fogo, o corte, o risco...
o estar apenas em ocupar,
o silêncio de quem incomoda.
 
Dizer está tudo bem
é o delírio do enforcado.
O jovem, o velho,
aprendem a regra.
Beijam a mão que os agrada.
Chamam isso de caráter.
 
O mundo é vasto.
O tempo, uma pauta apressada.
E todos cedem,
como quem mostra as pernas
para a chuva.
 
Há um tempo, porém,
em que só se foge.
As vozes.
As perguntas.
Vivê-las agora.
Depois, talvez,
uma resposta caia
como uma fruta podre.
 
O mundo é um lugar
onde se deve apenas estar.
Um domingo eterno.
Um perfume que não disfarça.
O lento envelhecer
de quem tentou ser.
 
 
O Farmador de Aura 
 de Ayalah Verônica Berg