Mathews

O Um Que Não É Soma

Milhões de pequenos fogos
se acendem ao mesmo tempo
nos corredores escuros do que sou.
Milhões de mãos disparam,
milhões de vozes falam
em línguas que não escolhi,
em uma química cega e elétrica
que não sabe o meu nome.

E, no entanto, eu.
Um só eu, indivisível,
como se todo esse incêndio paralelo
conspirasse para acender uma única vela
no centro de um quarto
onde ninguém entra.

A soma de tudo o que dispara em mim
não corresponde ao que sinto ao acordar.
Dez mil engrenagens em movimento
não fabricam, juntas,
o simples ato de ver a luz
e saber que sou eu quem a vê.

Expliquem-me com os neurônios,
com os mapas, com a mecânica sagrada dos corpos.
Expliquem-me por que a orquestra inteira,
cada nota em seu lugar,
ainda não é a música.
Por que o relógio desmontado sobre a mesa
ainda não é o tempo.

Porque a unidade que habita em mim
não vem das peças.
Vem de um lugar que as peças não alcançam,
de um princípio que não se pesa
nem se encontra ao microscópio.

Eu sou mais do que a minha própria matéria.
Eu sou o como que nenhuma parte explica,
o fio invisível
que costura os mil retalhos
e os chama, com voz suave,
de um só.

E, se me perguntam quem une,
direi que não sei.
Que há um Princípio
anterior ao mecanismo,
anterior à soma,
anterior à própria pergunta.
Algo que olha para o múltiplo
e diz: sê Um.
E o múltiplo obedece.

Talvez a consciência seja isso:
não o cérebro pensando em si mesmo,
mas um olhar sem olhos
que reúne o que estava espalhado
e lhe dá um nome.
O meu nome,
que nenhum dos milhões de fogos
sabe pronunciar,
mas que, juntos, incapazes,
obrigam a existir.

E eu fico aqui,
soma que ultrapassa as parcelas,
prova de que há um princípio
que não é máquina nem número
e que, no entanto,
me faz inteiro.