Francisco Claudio Claudio Gia

Pela Fé do Sertão — Poema Socialista

Pela Fé do Sertão — Poema Socialista
Claudio Gia
Macau, RN, 09/09/2026

No sertão da minha vida, entre o livro e o cordel,
entre as salinas de Macau e o vento que varre o vergel,
eu não procuro só o céu: procuro o pão sobre o papel.
A Escritura me diz, na poeira do chão,
que quem crê é filho de Abraão.
Mas Abraão era povo, era êxodo, era migração,
era gente sem cerca, caminhando em comunhão.

Em ti serão benditas todas as nações:
não as coroas, mas as mãos;
não os donos da terra, mas os filhos da estação.
O justo vive da fé — e a fé, no meu sertão,
é a certeza teimosa de que o Reino é partilha, não ilusão.

O Senhor se lembra sempre da Aliança!
E a Aliança, companheiro, é o povo em esperança.
Sou filho da luta, sou filho da esperança!
No caderno do operário, no sertão do meu cantar,
pela fé recebi o Espírito, e o Reino vai chegar.

Se o reino está dividido, não consegue subsistir;
casa sobre casa cai, quem não escuta vai cair.
Mas se é pelo dedo de Deus que a corrente se desfaz,
é porque o Reino de Deus chegou em paz.
E o dedo de Deus, nesta terra de sal,
é a mão do coletivo, é o verbo do jornal,
é o braço que se junta, é o sindicato, é o quintal.

Quem não está comigo, contra mim está;
quem não recolhe comigo, dispersa pelo ar.
O homem forte e armado perde a força que iludiu:
é o capital sem armadura, é o patrão que não dormiu.
O mais forte é Jesus, o carpinteiro, o socialista do amor,
que desarmou a cruz e fez do madeiro um novo lavor.

Ah, casa varrida, vazia de amor!
Se o Espírito não mora, volta o mal maior.
Ó Universidade, ó sertão, ó juventude,
enchei a casa com a fé que não se ilude!
Não a fé que ajoelha e espera no além,
mas a fé que organiza, que reparte o pão, que quer o bem.

Ó pífano, flauta, clarinete a soprar,
viola e zabumba, triângulo a soar!
Cristo nos resgatou, Aleluia, irmão!
Somos filhos da promessa, filhos de Abraão.
Mas a promessa não é trono, nem riqueza, nem poder:
é terra para todos, é trabalho, é comer.

Pela fé, pela fé, o Reino vai chegar.
Pela luta, pela luta, o povo vai chegar.
Amém, Senhor! Amém, Senhor!
Até que o pão seja de todos,
até que a terra seja de quem nela plantar,
até que o amor seja método, e a justiça, lugar,
e a utopia concreta seja pão, terra e poesia.