Nox Calvarie

A seiva escorre

Preso na névoa, estou me arrastando pelas paredes
Toda vez que sinto algo, vou perdendo as folhas, vou perdendo minha sensatez 
Tronco, pode podar todas as minhas raízes 
Tudo tem virado um problema, uma dor de cabeça, uma pendência, uma dependência 

Sem visão no olhar, sem sorriso para mostrar 
Diga que sou frio, diga que sou hostil, diga que não sou quem parece ser
Mas estou cansado, estou dependente, estou carente 
Não diga que sente, porque você não sente, e eu tenho rezado tanto, tem sido tão difícil, só que eu não quero reclamar 

Então acerte a navalha, acerte o machado com força na madeira 
Quebre a cerca, deixe a videira, deixe escorrer toda a minha seiva 
Mas me faça sentir que ainda estou vivo, me faça sentir que ainda tem alguma finalidade 
As horas passam, mas os dias nãos, eu tenho medo de estar dormindo na minha sepultura 

Não quero ser exagero, não quero ser precipitado, não quero ser algo que não sou
Mas minha folhas vão caindo, toda vez, que mente para mim 
No silêncio, no silêncio eu vou sangrando, até envergar 
Acenda o isqueiro, porque já não faz diferença, queime tudo o que um dia eu já tive, para que não sobre nada 

Eu vou cravando, cravando, espremendo todas as minhas juntas para subir do abismo 
Me diga que ainda posso ser consertado, me diga que ainda posso ser amado, me diga que vai ficar tudo bem
Mas não consigo ver, porque estou coberto de espinhos, cresci no meio das pedras e os pássaros roubaram todas as minhas sementes...