LASANA LUKATA.

Porto Maravilha

 

Outubro...
marinheiro faz soar o apito,
sete vezes a língua cadencia,
o sol se põe, a bandeira arria,
a onda borrifa a sua água fria
com sinceridade de ferrugem
a descolorir a desonesta tinta. 

sobre ondas gigantes,
marujos nos mastros,
se elevam aos astros
fazendo os cadastros
das estrelas.

estão chegando os transatlânticos,
passam meninas de corpo atlético,
som de cisne branco, noite de lua,
no mar o peixe sempre hermético,
preciso desentranhá-lo com anzol.

o ar inimigo, há drones caçando,
repentinidades de garça nos cardumes,
entre estrelas doces uma estrela amarga,
a boia verde acende a melancolia,

alga vermelha, alga verde, alga azul,
o tempo passa e já não sei
se são algas ou serpentes.
Porto Maravilha. Vitriólico!
Maravilha para quem?
projetos de que a vida arda,
para alga parda, tudo tarda.
para suportar pesadas cracas
enchi o navio de ilusões.

no meio das águas um rochedo
sem uma ostra, nenhuma craca,
pedras sem náufragos, mariscos.
pasmo a olhar as portuárias gruas,
içar não conseguem minha solidão.