Eu sou um artista de rua!
Aquele que dança e flutua,
Pintado de verde e esperança;
Que toca, que bate e sacode
O corpo, o atabaque, o que pode,
Com a alma sangrando na dança.
Eu faço a criança sorrir,
No sopro do apito a zunir,
E vejo as pessoas chegando.
Pareço contente e feliz
Pulando e pintando o nariz,
Mas sinto o meu peito chorando.
Eu subo no chão da cadeira
E abano sentindo coceira,
Ouvindo assovio e risadas.
Espio do canto dos olhos
O velho chapéu e recolho:
Sem uma moeda, sem nada...
Sorrio ao cordão da lameda
e passo a cuspir labaredas.
Adultos sorriem, maduros
E toda a criança se espanta
Do fogo que a boca levanta,
À noite que chega no escuro.
Cansado e joelho em frangalhos
Apanho o meu velho agasalho
E tento esquecer-me da fome.
E então agradeço às pessoas,
Por palmas e risos à toa,
E nunca saberem meu nome...