As únicas riquezas que o tempo me deixou,
São memórias antigas do amor que não ficou,
Retratos invisíveis que a alma ainda lê,
Sombras de sentimentos que nunca pude ter.
Sigo a trilha da vida, na poeira da estação,
Com o eco dos silêncios morando em minha mão,
A solidão me veste nas noites sem luar,
Enquanto os sonhos velhos insistem em voltar.
No banco da lembrança, sentado em meu passado,
Revejo aqueles olhos que eu tinha admirado,
Amores tão distantes, de toque nunca alcançado,
Jardins de um sentimento em segredo cultivado.
Ah, quantas madrugadas, no frio da emoção,
Conversei com o vazio, tentando uma razão,
Pois amar sem ser visto é um doce padecer,
É guardar no peito alguém sem nunca o ter.
Havia um riso tímido cruzando o corredor,
Um perfume tão leve, promessa sem amor,
Nos tempos de colégio, dos sonhos de rapaz,
Onde um simples olhar já me roubava a paz.
E o tempo foi passando, veloz como um adeus,
Levando tantas faces para os braços dos céus,
Mas certas lembranças, feito estrelas a brilhar,
Recusam-se ao esquecimento, preferem habitar.
Hoje caminho só, mas não vazio, afinal,
Pois carrego universos num silêncio colossal,
Se a vida foi estrada de encontros pela metade,
As memórias fizeram morada na saudade.
Porque os amores assim jamais morrem por fim,
Dormem quietos na alma, feito jardim sem jardim,
E mesmo na solidão que insiste em florescer,
Ainda existe esperança de um dia renascer.