Como andorinha, foram-me dadas asas.
Voei pelo vasto céu, mas sem companhia;
o céu, em sua imensidão, tornou-se
pequeno, e em seu divertimento, entediante.
Toco, sem entusiasmo, as tão encantadoras
cordas do meu alaúde, pois não há quem encantar.
De que adianta a música ressoar, se não há alguém, que não eu,
para dançar?
Repouso meu queixo no braço do meu instrumento
e toco ali mesmo, na sombra de uma nuvem.
Mal posso sentir a companhia das minhas lágrimas,
pois são levadas pelo vento.
Meu amigo Ícaro, chamei-o de tolo,
mas talvez tenha te julgado mal.
De que adianta voar sob os limites do céu,
se ele é só seu?
Mais valor há em tocar o sol
e sentir um calor que não o do meu eu.
Ainda que queime, ainda que seja o fim,
pelo menos teria algo além de mim.
- Miguel Espinoso