Versos Discretos

A bruxa e o poeta

O altar de sombras acolhe a solenidade do rito.
Em silêncio, reclusos os meus passos na penumbra,
faço-me testemunha muda de um espetáculo de carne e mistério.
À iluminação trêmula de velas de cera escura,
ela se prostra de bruços, o ventre colado à tapeçaria,
o corpo macio e esguio como uma estrofe inacabada,
exposto à mercê do guardião que a subjuga.

Ele avança sobre ela, um monumento de fibra e bronze,
cujo porte atlético apequena a silhueta da bruxa,
deixando-a frágil, vulnerável sob a densidade daquele peso.
Mas não há temor em seu abandono.
A epiderme dela estremece em febre não apenas pela força que a prende,
mas pelo conhecimento tácito de que o meu olhar a despedeça e a refaz.
Ela sabe que sou a lente que filtra a sua entrega,
e a consciência de ser observada converte a submissão em feitiço.

O amante ajusta o compasso e aproxima-se de sua fenda augusta.
Com uma pressão contínua e inexorável,
o facho vultoso e turgido força a passagem exígua,
dilatando a corola delicada daquela flor pequena que se molda à força do invólucro.
É uma incursão vívida, velada pela erudição da entrega:
o diâmetro denso e viril toma o santuário apertado até o limite,
desdobrando as dobras mais secretas do seu ser em uma fusão de rigor e carne.

A cada arremetida profunda, uma estrofe visceral se desprende de sua garganta.
Seus gemidos deixam de ser mero alento para se tornarem encantamentos,
vocábulos profanos e sílabas rasgadas no limiar onde a dor tangencia o êxtase.
A pancada cadenciada contra a sua pequenez arranca-lhe suspiros em transe,
e, na vertigem do atrito, quando o ferro do desejo encontra a sua profundeza,
ela vira o rosto em minha direção e articula, num murmúrio trêmulo, o meu nome.
É ao poeta que ela dedica a oração do seu deleite,
enquanto o corpo do outro a consome na obscuridade.