Não me pergunto
Quem de nós dois
Vai dizer que é impossível
Ou fingir que é improvável
Que dois olhos falem
Que a pele negue
O que já é memória
Volta e meia, de relance
Ora doído, ora absorto
Intrigado, fissurado
Pego-me largado
Perdido, despido
De toda ideia a ser escrita
Sobre ti
Que não avisto arestas
Que és meu pecado
Imperfeito, resoluto
Desejado, inalcançável
Faz-se etéreo
Carente de vias
Para se consumar
E algum dia serás tu
A flor de outrem
Lampejo doce
Duma aurora qualquer
Ou da tarde que cai
Numa cama quente
Dessas, sem mim
A servir de consolo
Ou talvez espólio
De um valor mais alto
Se bem que duvido
O que quero de ti
É bem claro, tenho repertório
Que não posso citar
Fagulha egrégia
Me erode a alma
Explodindo em meu ser
O que antes morto
Agora revivido
Em angústia, em delírio
Arauto de ti
Não cogito o amanhã
Que me possa levar
A teu ventre tenro
Ou marés brutais
Que varrem a encosta
De um fiorde escondido
E sagrado
Da pior forma, eu prevejo
A semente perdida
As chagas contidas
E o revés
De um feromônio, maldito
Faz-me teu, sou teu!
Acólito
A viver nas sombras
A redigir as páginas
De um livro curto
Que começa em tua boca
E se encerra em tuas coxas
Tão fartas
Tão delgadas
Se há olhos e ouvidos
Testemunhem, verifiquem
Não há dúvidas
Da obra dos céus
Do cosmos que aponta
Uma musa me afronta
A lhe adorar