Damião Rodrigues

Porcelana

Ai, pequenino sentimento,
coça toda vez que te vejo.
Escrevem-me mensagens de aniversário
mil, mas apenas a tua leio.
Dou significado até às vírgulas,
e no teu aniversário, não dou nada,
tenho medo que me entregues,
mas te dou um abraço
e tenho que ser o último da fila
para que demores mais.
Sinto que nos correspondemos,
mas é impossível.
Apequenamo-nos, então,
em um pote de porcelana.
Houve um dia em que me beijaste a face
e eu a tua mão. Sentimos os lábios
um do outro, e quase a louça se quebrou.
Desde então, a trancamos em um cofre
e a abrimos apenas em cartões postais
cifrados, pulsantes, amarelados.

 

Por Damião Rodrigues