Vinicius

Primeira Luz

Quando o pouco era tudo sobre a nossa mesa,
tu repartias o pão, o sono e os dias. 
Enquanto a casa, em silêncio, dormia, 
costuravas, na sombra, a nossa leveza. 

 

No teu ombro dorido escorava-se o mundo,  
mas tua voz transformava o medo em calma; 
do teu silêncio erguias um teto profundo, 
tecido de afeto, ausente de palmas. 

 

Hoje entendo o peso que antes não via: 
quantas dores calaste sem nada dizer. 
A tristeza embebia o teu anoitecer, 
mas sorrias ao sol que à porta nascia. 

 

E escuto, mãe, com tristeza serena, 
o que só o tempo nos diz, devagar: 
que o amor é alguém a própria vida gastar 
para que a dor do outro pareça pequena. 

 

Por isso, mesmo que tudo em mim anoiteça 
e eu já não saiba por onde seguir, 
hei de buscar, no fundo do teu existir, 
minha primeira luz, que guardas acesa.

 

Vinícius de Souza