Um dia você foi embora
e a casa nem mesmo percebeu.
Deixou quase tudo:
o copo preferido,
sua marca de um lado do colchão,
um livro aberto numa página
que não sei se virarei.
Por algum tempo,
continuei deixando tudo
onde sempre esteve.
O copo no mesmo lugar.
A cadeira perto da mesa.
A roupa que ainda parecia
ter um corpo dentro.
É estranho perceber
que as coisas não sabem.
As estações continuam passando pela janela.
Flores nascem,
oferecem seu perfume,
doam pólen às abelhas
e deixam suas pétalas e sementes
serem levadas pelo vento.
E dentro de casa
ainda há este silêncio inquietante
ocupando lugares onde antes
havia sua voz
chamando meu nome.
Pouco a pouco, fui percebendo:
há dias em que a falta parece tão grande
que eu nem sei
onde me colocar dentro dela.
Os dias vêm
e viver é pouco mais
do que empurrar uma cadeira
para perto da mesa
e sentar.
Sem entender.
Sem concluir.
Só sentar.
Há sentimentos
que demorei a nomeá-los em voz alta.
Talvez porque,
no fundo,
eu já soubesse
o que aquilo queria dizer.
Existem gavetas
que ainda evito abrir.
Não é medo.
É só que,
antes mesmo de abrir,
eu já sei
o que não vou encontrar.
Mas, inevitavelmente,
a coincidência me insulta.
Um bilhete no fundo de uma gaveta.
Uma fotografia entre dois livros.
Um objeto pequeno
que já não lembro
por que guardei.
Fico ali olhando.
Por alguns segundos,
parece que tudo
voltou a caber naquele objeto.
Então o guardo de novo.
Não porque passou.
Não passa assim.
Guardo
porque algumas coisas
não precisam continuar diante dos olhos
para continuar existindo.
No dia seguinte,
a manhã chega outra vez.
E eu me levanto.
Abro a janela.
As maritacas voltaram,
sempre voltam,
tagarelando sobre os telhados.
Nem sei se são as mesmas,
mas lá estão elas.
Então lembro de pôr água no café.
Faço alguma coisa qualquer
que me devolva à rotina,
àquilo que as mãos
aprenderam sem perceber.
Não como quem venceu a ausência.
Nem como quem aprendeu
a viver sem ela.
Apenas porque é preciso
seguir por nós dois.
Porque alguma coisa ficou.
E talvez seja isso
o que faz com que eu siga:
carregando, sem perceber,
pequenas coisas
que fomos compartilhando:
a mesma forma de rir
de uma piada sem graça,
a porção de salada
do mesmo lado do prato,
o mesmo jeito
de ajoelhar-se
e orar.
Até que já não sei
onde termina a falta
e começa aquilo
que ela deixou
em minha maneira de estar
e de olhar o mundo
novamente
com apenas dois olhos.
Os seus fazem falta.
— Pedro Trajano