Há um rumor nos dias vazios,
um tremor que não se confessa.
Finjo que é brisa. Olho devagar.
O sol se repete, o mar balança,
e as ondas quebram, frias, em série.
Ele dorme ao meu lado:
cabelo prateado, fado antigo.
Talvez seja amor — a vontade em ensaio,
um poder que não tem referência.
A poeta morde o lábio.
Quem é mais ingênua? A ilusão, ou eu?
Sob o lençol, minha paciência tem dentes.
Tua respiração me roça: mel e lâmina.
Ninguém acorda.
Deixo o desejo subir — fome mansa, brasa cega.
A carne reza baixo o que a boca cala.
Um pouco de êxtase, muito querer.
Se a loucura espreita, que espere.
Quero silêncio... do contrário, dispenso.
A noite é curta, e o impossível me acende.
Na escuridão e nos lábios, invento tudo.
Sorrio e prossigo,
como quem finge não gostar de pular no abismo.
Do Lençol ao Abismo
de Ayalah Verônica Berg