Terapeuta – Cairo?
Eu – Hm?
Terapeuta – Por aqui Cairo, por favor.
Eu – …
Terapeuta – Porque não te sentas, e conversamos um pouco?
Eu – O que você quer de mim?
Terapeuta – Quero que te sentes.
Eu – Pronto, sentei-me.
Terapeuta – Agora diz-me, como te sentes?
Eu – Como eu me sinto?
Terapeuta – Sim…
Eu preciso de saber como te estás a sentir para obter um diagnóstico…
Eu – Ao invés de me perguntar como me sinto,
me pergunte como me senti,
soa melhor assim, mas por favor,
só não me pergunte como me vou sentir…
o que senti é mais importante do que sinto,
é um problema acontecer,
há problemas que só têm solução depois de terem acontecido…
se um problema não tiver solução, é porque ainda está a acontecer…
Se já tiver uma solução de antemão, é porque o problema ainda está para acontecer…
acho que deu para entender.
É como encontrar um objeto pessoal, depois de ter desistido de continuar a procurá-lo.
Terapeuta – Percebo.
E agora diz-me.
No que estás a pensar?
Eu – Eu estou a pensar…
no que estou a pensar.
Terapeuta – E no que estás a pensar exatamente?
Eu – Eu penso que não devo pensar tanto, mas ao pensar no tanto que penso, entretanto e entre tantos pensamentos acabo por pensar ainda mais no que estava a pensar, e do que já estava a pensar…
Terapeuta – Curto e complexo, enigmático e pragmático, como sempre.
Eu – -.-
Terapeuta – Agora diz-me Cairo…
estás ansioso?
Eu – a-n-s-i-e-d-a-d-e…
ânsia da idade…
de a cada ano mudar de idade
e nada mudar.
Terapeuta – Vejo que são sinais claros de depressão.
Eu – Não há nada claro na depressão, é tudo escuro, se fosse claro, ninguém a teria.
Terapeuta – Como assim?
Eu – Eu quis dizer que todos os que conheço se perdem ou estão perdidos na escuridão, mas ninguém se perderia na claridão, não faria sentido.
Ela só existe para que os outros não fiquem perdidos.
Terapeuta – Percebi.
Eu – E não estou com depressão, só estou cheio de pressão.
Da pressão diária e constante de ir dormir sendo um zé ninguém.
Sonhar ser um zé alguém, acordar, e ainda ser um zé ninguém.
Sem ninguém para me confortar, abraçar, ou mesmo dizer que os dias ensolarados mas chuvosos estão perto de acabar.
Terapeuta – …
Eu – Hoje de manhã me perguntei onde tinha deixado a coroa,
mas lembrei-me que nunca tive uma…
e que não havia estrelas no céu…
porque ainda era dia.
Terapeuta – Isso são sinais de depre—
Eu – Meu diabo…
És alguma Miriam Mano da vida?!
eu já disse, e não volto a repetir.
Não é depressão…
Só estou depressivo…
- luminoso, o vitorioso.