Toria

Dois segundos

Há dias em que a alma, cansada dos ruídos do mundo, recolhe-se em silêncio e já não deseja conversa alguma, tão pouco o labor de existir.

Há dias em que até os pequenos deveres se tornam pesados, e tudo o que se deseja é afastar-se, por um breve instante, da presença de todas as coisas.

Dois segundos.

Dois brevíssimos segundos em que o mundo pudesse cessar seus clamores; em que as dores se calassem, as melancolias perdessem o peso e as feridas do peito encontrassem algum repouso.

Um pequeno intervalo de tudo.

Dois segundos de silêncio.
Dois segundos de paz.
Dois segundos em que o coração pudesse descansar das próprias lembranças.

E então, quando o mundo voltasse a bater à porta, reunir os fragmentos de si, recompor o semblante e retornar à vida, como quem regressa de um longo inverno.