Carrego um quarto escuro dentro do peito,
onde o silêncio aprende a respirar;
cada lembrança repousa sem jeito,
como quem desaprendeu a sonhar.
As paredes são feitas de ausências,
e o teto, de perguntas sem resposta;
o tempo pendura suas reticências
na esperança que insiste e se desgosta.
Há um relógio que esqueceu das horas,
um espelho coberto de poeira e dor,
retratos amarelados de antigas auroras,
cartas rasgadas por um velho amor.
À noite, converso com minha sombra,
ela conhece o idioma do vazio;
não promete milagres, não me assombra,
apenas acompanha o desvario.
Às vezes penso que a vida se perdeu
em alguma esquina que deixei passar;
talvez o homem que um dia fui morreu,
sem que ninguém o pudesse velar.
Mas, mesmo quando o frio me consome
e a alma já não sabe onde aportar,
há um horizonte que ainda tem nome,
embora eu não consiga o enxergar.
Quem sabe o amanhecer seja discreto,
chegue sem alarde, sem se anunciar;
e encontre aberta a porta desse peito,
onde o silêncio cansou de morar.