Ana P. Gonçalves

Cilada

Acredito na minha própria história mal contada,

Que nem se quer me lembro das minhas escritas e falas,

repetindo a farsa até virar verdade,

daquilo que fiz, não me lembro de nada,

do fim que eu mesma atraso,

apago o rastro com fria facilidade.

 

Inverto o espelho  pra não ver o estrago,

fiz da culpa um fardo que atiro para o outro, outro lado,

transformo em veneno o afeto que você traga,

e juro minha inocência pra tirar minha reta de lado.

 

Crio um labirinto em que a mente se perde,

onde a memória é sempre maleável,

mas quem me conhece por dentro percebe,

meu esquecimento é só covardia confortável.

 

Digo sempre ser momento errado,

vaidade presa em minhas desculpas vãs,

se depender do meu fardo,

morrerá tudo nas manhãs.

 

Teve a coragem de assumir,

viver o que o peito guardou,

mas bastou tudo se abrir

pra ver o quanto me recuo.

 

Duas faces em conflito,

um quebra-cabeça que cansa e esgota,

tentou curar o meu atrito,

mas minha vaidade,  ego, narciso e turbilhões se revolta.

 

Tentou endireitar e consertar 

essa história tão torta, 

mas se a verdade me afeta,

fecho todas as portas.

 

Cansou de dar murro em ponta de faca

e seguiu o caminho após acordar de uma ressaca

 

\"Eu não presto, é melhor ir adiante e seguir a sua rota

Desejo toda felicidade do mundo, mas temperei a salada para uma outra\"