Vazio...
?É a saudade do que não vivemos,
Dos planos novos que ficaram sós,
Das viagens que nunca faremos,
Do cais que nunca vai ouvir nossa voz.
?Chorar por um amanhã que morreu,
Pelas histórias que eu quis inventar,
Onde o destino era você e eu,
E que o teu passo resolveu apagar.
Guardei na gaveta o mapa do mundo,
Que a gente desenhou num guardanapo,
O sentimento que era tão profundo
Agora é folha seca em trapo.
A chave da casa que nunca compramos,
O nome do filho que não vai nascer,
Os velhos domingos que tanto sonhamos,
Tudo o que o tempo cansou de esquecer.
O álbum de fotos vazio, sem cor,
De festas e risos que não vão chegar,
O brinde suspenso em nome do amor,
Que a sua partida não quis celebrar.
Há um silêncio que ocupa a calçada,
Onde os teus olhos não vão mais sorrir,
A nossa varanda ficou deserta,
Sem ter o teu corpo na hora de ir.
Eu faço o inventário de cada detalhe,
Dos dias de chuva que iríamos ter,
Pedindo ao vento que nunca me falhe,
Ao me ensinar como te esquecer.
São treze promessas jogadas ao léu,
Bilhetes de idas sem ter o retorno,
Pintamos de cinza o azul do teu céu,
Deixando o inverno ocupar o contorno.
A mesa posta para dois cafés,
Que esfriam enquanto a noite desaba,
O rastro que deixa a maré nos teus pés,
Mostrando que a praia também se acaba.
Quem dera o relógio voltasse o ponteiro,
Pro instante exato em que tudo mudou,
Antes do adeus se tornar verdadeiro,
Antes que o vento o \"nós\" carregou.
Mas sigo contando os restos de nós,
Nas cinzas daquilo que nunca ruiu,
Ouvindo o eco da tua própria voz,
No quarto escuro que você partiu.
O inventário é um peso de chumbo,
De tudo o que fomos sem nunca ter sido,
Um barco perdido no meio do mundo,
Um porto que foi por nós esquecido.
Por fim, aceito o vazio do espaço,
E fecho a conta do que não restou,
Desato o nó que prendia o meu passo,
E choro o amanhã que você me roubou.
Wagner Elias de Magalhães