Talvez deixar você ir
seja o gesto mais covarde
e mais bonito
que eu consiga fazer por nós.
porque eu quis.
quis tanto
que desse,
que bastasse,
que o pouco que eu conseguia oferecer
fosse, de algum modo,
o suficiente para você ficar.
mas não foi.
e eu não sei se a culpa é minha
ou desse medo que mora em mim
como se tivesse nascido comigo.
você me pede presença
e eu ofereço silêncio.
você me pede coragem
e eu ofereço tempo.
Você me pede um lugar na minha vida
e eu te entrego apenas os lugares
onde ninguém pode nos ver.
eu sei que dói.
talvez doa em você
porque parece que eu não te escolho.
mas como explicar
que às vezes a gente escolhe alguém
e ainda assim
não consegue escolhê-la diante do mundo?
como explicar
que eu não tenho vergonha de você?
eu tenho medo.
medo do que acontece
quando aquilo que sentimos
deixa de ser segredo
e ganha o nome
que tanto tentamos evitar.
você já atravessou essa porta.
eu ainda estou diante dela,
com a mão na maçaneta,
sem saber se tenho coragem
de abrir.
e talvez seja isso
o que mais me destrói:
eu poderia te amar.
mas não sei se consigo
ser a mulher que esse amor exige
de mim agora.
e você não deveria precisar
diminuir seus desejos
para caber nos meus medos.
não deveria precisar aceitar
metade de mim
quando eu mesma sei
que você merece inteiro.
por isso talvez eu precise deixar ir.
não porque não sinto.
mas porque sinto
e sei que sentir não basta.
somos duas pessoas
tentando se encontrar
enquanto uma pede para ser vivida
e a outra ainda está aprendendo
a existir.
duas pessoas indecisas,
imprevisíveis,
incompreendidas,
doloridas.
duas pessoas que talvez tenham se amado
no intervalo errado da vida.
e eu queria dizer
que, se dependesse apenas do meu coração,
eu ficaria.
ficaria mesmo.
mas há coisas dentro de mim
que ainda gritam mais alto
do que a minha vontade de ficar.
e talvez um dia
eu aprenda a não ter medo.
talvez um dia
eu consiga dizer seu nome
sem abaixar a voz.
talvez um dia
eu consiga amar sem esconder
as mãos,
os olhos,
a boca,
a existência.
mas hoje,
hoje eu só consigo te amar
do jeito imperfeito
que ainda sei.
e talvez isso seja pouco para você.
talvez seja pouco para nós.
então, se eu te deixar ir,
por favor, não pense
que foi porque você não foi suficiente.
foi porque eu ainda não sei
como ser suficiente
para aquilo que sinto.