Há amores que não sabem morrer.
Podem ser sepultados sob juramentos,
trancados em gavetas,
entregues ao esquecimento
como cartas que jamais deveriam
tornar a ser lidas.
Ainda assim, sobrevivem.
Não há distância suficientemente longa,
nem orgulho que permaneça de pé
diante daquilo que o coração
se recusa a dar por morto.
O nosso nunca foi desses amores
que os romances costumam enfeitar.
Não houve jardins em flor,
nem promessas ditas sob a lua,
nem finais dignos de moldura.
Houve tempestades.
Portas cerradas com demasiada força,
palavras ditas como lâminas,
mãos que se procuraram
quando já deveriam ter aprendido
a permanecer distantes.
Houve partidas.
E, depois delas,
aquele estranho silêncio
de uma casa abandonada.
Mas o destino, esse velho tirano,
jamais pareceu consentir
com a nossa separação.
Bastava o tempo passar,
a névoa descer sobre os jardins,
uma velha canção soar ao longe,
e alguma coisa começava a chamá-lo.
Não sei de onde vinha.
Talvez das ruas molhadas,
talvez dos corredores escuros,
talvez daquela parte do meu coração
que jamais aprendeu a esquecê-lo.
E ele surgia outra vez.
Não como quem regressa,
mas como quem fora apenas
temporariamente afastado
por uma força que nunca teve
autoridade suficiente para vencê-lo.
Sempre o mesmo.
Sempre diferente.
Trazendo nos olhos
a insolência dos velhos fantasmas
e nos lábios
a promessa de um incêndio
que jurávamos ter apagado.
Eu poderia fugir.
Poderia mudar de cidade,
de hábitos, de nome,
encher os aposentos de novas vozes,
queimar retratos,
rasgar cartas,
jurar diante de Deus
que jamais tornaria a pronunciar o seu nome.
Seria inútil.
Pois certas paixões não obedecem
à vontade dos vivos.
Elas permanecem.
Como o nevoeiro sobre os cemitérios,
como a hera sobre os muros antigos,
como o perfume de uma flor
que morreu há muito tempo
e, ainda assim, permanece nas cortinas.
Aguardam.
E quando o mundo, por alguma crueldade,
repete uma antiga combinação de estrelas,
quando a mesma chuva bate
contra a mesma janela,
quando a noite veste outra vez
o seu negro traje de outrora,
alguma coisa desperta.
Não porque a chamamos.
Não porque a desejamos.
Mas porque há encontros
que parecem ter sido escritos
antes mesmo que os amantes
tivessem nascido.
E talvez seja essa a verdadeira crueldade
de certas paixões:
há histórias que recebem um ponto final
apenas para que o destino,
em sua mórbida insistência,
lhes devolva uma vírgula.
Podemos separar as mãos.
Podemos abandonar a casa.
Podemos fechar para sempre
a última porta.
Mas o destino conserva chaves
que nenhum de nós possui.
E assim, depois de todo adeus,
quando já não resta esperança
nem motivo para esperar,
ouvem-se passos no corredor.
Lentos.
Conhecidos.
Inevitáveis.
E o coração, traidor e antigo,
reconhece antes dos olhos
aquilo que a razão levou meses
para tentar esquecer.
Então não abro a porta.
Não é preciso.
Há coisas que não precisam ser convidadas
para encontrar o caminho.
Há amores que não encontram
o caminho de volta.
Há amores que jamais deixaram
de saber onde ficava a nossa porta.