Charles Araújo

ADICTO

ADICTO

 

Confesso: errei. Pronto. Podem guardar as pedras, pelo menos por enquanto. Eu mesmo já joguei pedras demais na minha cabeça, e posso garantir que nenhuma delas resolveu coisa alguma; no máximo fizeram barulho. Eu sabia o que estava fazendo, e essa talvez seja a parte menos bonita da história e, justamente por isso, a mais verdadeira. Não fui um inocente enganado pelo destino, nem um pobre sujeito que acordou certa manhã e descobriu, horrorizado, que tinha virado adicto enquanto dormia. Eu procurei, eu quis, eu voltei e voltei sabendo exatamente o que estava fazendo. Portanto, se alguém estiver procurando uma desculpa elegante para me absolver, sinto decepcionar: não tenho nenhuma para oferecer.

 

Passei muito tempo fabricando explicações. A culpa era da dor, da solidão, das circunstâncias, das pessoas, do passado, do mundo, da minha cabeça e, se me dessem mais cinco minutos, provavelmente eu colocaria a culpa até na previsão do tempo. Algumas dessas coisas eram verdadeiras, e esse era justamente o problema, porque uma verdade também pode servir de álibi quando a usamos para explicar tudo aquilo que fazemos depois. Eu estava sofrendo, claro que estava, mas sofrer não me transformava automaticamente em santo, e foi bastante desagradável descobrir isso. Durante muito tempo eu queria que a minha dor explicasse também as minhas escolhas, como se uma coisa anulasse a outra. Não anulava.

 

Eu queria parar e também queria continuar. Essa é a parte que geralmente fica de fora quando alguém resolve contar uma história como a minha, porque fica muito mais bonito dizer que eu lutava desesperadamente contra o vício. Em parte, eu lutava mesmo, mas também era o adversário da própria luta. Pela manhã eu prometia mudar de vida e, à noite, já estava negociando com a minha consciência como um político em época de eleição: prometia tudo, não entregava nada e ainda saía convencido de que tinha feito um excelente acordo. “Só mais uma vez”, “agora eu controlo”, “depois eu paro”. Minha consciência já conhecia o repertório inteiro, mas eu continuava repetindo como se, por alguma evolução misteriosa da humanidade, a mentira tivesse finalmente começado a funcionar.

 

E funcionava, durante algum tempo. Depois vinha a culpa, sempre pontual, como funcionário público em dia de pagamento. Eu me sentia um miserável, prometia que nunca mais faria aquilo e, quando a vontade voltava, descobria que a minha moral tinha uma resistência impressionantemente baixa. Bastava apertar um pouco e ela começava a negociar. E eu negociava. Não me orgulho disso, mas também não vou fingir uma dignidade que eu não tinha. Eu me tornei especialista em encontrar argumentos para aquilo que queria fazer. O homem é um animal curioso: primeiro deseja, depois inventa uma filosofia para justificar o desejo e, por fim, acredita na própria filosofia. Eu fiz isso várias vezes, com convicção e, em certos momentos, quase com elegância, se não fosse tão ridículo.

 

Cheguei a pensar que o meu problema era apenas falta de controle, mas hoje sei que era mais complicado. Havia dias em que eu queria realmente parar e havia outros em que eu queria parar apenas depois da próxima vez. Parece uma diferença pequena, mas foi exatamente nela que passei muito tempo me enganando. Eu não era apenas vítima, e não digo isso para diminuir a minha dor. Digo porque me recuso a transformar a minha história numa dessas narrativas confortáveis em que o sujeito não teve escolha, o mundo foi cruel e tudo simplesmente aconteceu com ele. Não. Aconteceu comigo, mas eu também fiz acontecer. Essa parte é minha. A vergonha também.

 

Talvez seja justamente aí que comece alguma honestidade. Porque eu fui capaz de me olhar no espelho e pensar: “Que merda você está fazendo?” e, depois de alguns minutos, continuar fazendo. Há uma certa grandeza na estupidez humana, admito. Somos capazes de compreender perfeitamente o absurdo e, ainda assim, participar dele com uma dedicação quase religiosa. Eu tive fé no meu próprio desastre. E o mais engraçado é que eu queria ser salvo sem abrir mão completamente daquilo que precisava abandonar. Queria a paz, mas não queria pagar o preço da renúncia. Queria mudar, mas queria continuar sendo exatamente o mesmo homem. Queria colher outra vida sem deixar de plantar a antiga. Uma matemática miserável, evidentemente destinada a não fechar a conta.

 

Também não houve grande revelação no fim. Não apareceu nenhuma luz celestial, nenhum profeta particular, nenhum sujeito de barba descendo do teto para me explicar o sentido da existência. Houve vergonha, silêncio, raiva e uma quantidade razoável de conversas desagradáveis comigo mesmo. Foi assim que comecei a entender que talvez a recuperação não tivesse nada de heroico. Às vezes ela consiste apenas em parar de mentir para si mesmo, o que já é um trabalho considerável para qualquer ser humano.

 

E ainda estou aqui. Não porque tenha me tornado exemplo de virtude; Deus me livre dessa pretensão. Já basta ter sido adicto; virar santo depois seria uma falta de modéstia imperdoável. Estou aqui porque alguma coisa em mim, apesar de toda a bagunça, decidiu que ainda valia a pena continuar. Não chamo isso de vitória, porque vitória é uma palavra grande demais para uma criatura tão contraditória. Chamo de resistência, e talvez seja uma palavra mais honesta.

 

Ainda existem dias em que preciso lembrar quem fui para não voltar a ser aquele homem. Não faço isso para me punir, mas para não cair novamente naquela velha conversa de que comigo será diferente porque, desta vez, tenho certeza. Eu conheço essa certeza. Ela já me enganou antes e, francamente, não pretendo dar a ela outra oportunidade.

 

Então não, não tenho uma moral bonita para terminar esta história. Tenho apenas uma constatação bastante incômoda: passei muito tempo querendo desaparecer e, ao mesmo tempo, fazendo tudo para continuar vivo. Vai entender o ser humano. Eu, particularmente, desisti de entender. Por enquanto, estou ocupado demais vivendo.