Ayalah VerĂ´nica Berg

A FACE DO MEDO

 

O medo tem a face lisa.
Um relógio parado.
A voz que se confunde com a de outro.
O vento que corta a folha.
 
Um piano soa onde não há piano.
Um arrepio sem causa.
A luz que não vaza da janela.
O achado que sempre esteve ali.
 
Ser é o que sobra
quando o talento se cala.
A máscara cai
e a face é o vazio.
 
A vestimenta é a pele.
Esconder-se é a nudez.
 
Então, no fundo,
onde tudo desaba,
resta o gesto absurdo 
de pular no abismo.
 
E voar.
Sem asas.
Sem porquê.
Como quem já perdeu tudo,
menos o vício de recomeçar. 
 
 
A Face do Medo 
 de Ayalah Verônica Berg