KDUBORGES

 Uma licença poética: A Canção dos Ciclos


    
Ah, essa vida previsível, 
Onde cada passo parece ensaiado, 
Num compasso marcado, previsões no papel,
Como folhas velhas de um calendário dobrado.
Tudo se sabe, tudo se vê,
Como o rio que conhece o próprio leito,
fluindo lento, obediente,
mas sem o furor do mar inquieto.
    
Até que, sem avisos, chega o vento,
rasgando o céu com seu rigor selvagem.
Ah, mudanças inevitáveis,
Feitas de saudades e coragem.
Como pedras soltas no trilho da vida,
Tombam certezas, rolam destinos;
O tempo tem sua própria sede,
E nenhum de nós escapa ao seu hino.
    
É o outono do que se foi,
Folhas caindo, dourando o chão.
E o inverno, mudo e denso,
Traz uma quietude em cada estação.
Mas a primavera dança adiante,
Renascendo a esperança com novas cores,
Até o verão brilhar soberano,
como uma vida inteira de amores.
    
Aceitar as linhas que o tempo borda,
É ver a beleza na ferida e na falha.
Há perfeição nos contornos tortos,
Na cicatriz que o espelho não cala.
Deixa-se moldar por ventos e choques,
sem buscar alívio no feixe do ideal.
Sabe-se agora que a imperfeição,
É onde a beleza se faz real.
    
E o poeta, nostálgico, lamenta e ri,
de um passado que já não cabe no peito.
Pondera o hoje com um olhar brando,
Sabe que nada é perfeito.
Pois, na previsível dança dos dias,
No vento, na folha, no rastro que passa,
Há um sopro de algo eterno e breve –
A vida, poesia que escorre e se abraça.