Na geometria fria do desejo,
O peito desenha o que não vê.
Molda na sombra o contorno do beijo,
Inventa o outro para salvar a si de ser.
É pura carência a chama inicial,
Um cálculo incerto da solidão:
Toma-se o reflexo pelo essencial,
E ergue-se um templo em falso chão.
Paixão é febre, vertigem e engano,
Vetor sem rumo que busca abrigo.
Tradução aflita do fome humana,
Que transforma o estranho em lar antigo.
Mas a queda vem, exata e constante,
Quando o véu da ilusão se desfaz.
A verdade surge, dura e distante,
Mostrando que o mito não dura mais.
A desilusão é a única cura,
O choque do real contra o ideal.
Desmorona a torre de fantasia pura,
Sobram os escombros do ser real.
Amar não é preencher o deserto,
Nem usar o outro como bastão.
É encarar o abismo de peito aberto,
Sabendo que a dor consolida o chão !