FELÍCITY_POETA

A ARQUITETURA DO BRASIL

Na geometria fria do desejo,

O peito desenha o que não vê.

Molda na sombra o contorno do beijo,

Inventa o outro para salvar a si de ser.

É pura carência a chama inicial,

Um cálculo incerto da solidão:

Toma-se o reflexo pelo essencial,

E ergue-se um templo em falso chão.

Paixão é febre, vertigem e engano,

Vetor sem rumo que busca abrigo.

Tradução aflita do fome humana,

Que transforma o estranho em lar antigo.

Mas a queda vem, exata e constante,

Quando o véu da ilusão se desfaz.

A verdade surge, dura e distante,

Mostrando que o mito não dura mais.

A desilusão é a única cura,

O choque do real contra o ideal.

Desmorona a torre de fantasia pura,

Sobram os escombros do ser real.

Amar não é preencher o deserto,

Nem usar o outro como bastão.

É encarar o abismo de peito aberto,

Sabendo que a dor consolida o chão !