madeleine

insônia

eu o idealizei porque a minha mente

não suporta o vazio

de não ter para onde escoar essa pressão interna.

ele não é real.

na realidade, ele é completamente o oposto de mim.

 

isso não é amor.

se o amor for essa humilhação voluntária,

essa dependência de um sinal de vida que nunca vem,

então eu prefiro o silêncio absoluto.

 

ele vai contra a minha estrutura,

contra a minha disciplina e contra a minha precisão.

e, ainda assim, há momentos em que nossos pensamentos

parecem vir de outra vida.

é como se o ritmo dele me reconhecesse por dentro,

antes de a consciência estragar tudo.

 

como eu o amaria, afinal?

se eu soubesse o que é o amor,

talvez eu soubesse como tocar alguém sem ferir.

mas eu só sei o rigor.

e o rigor, ao lado dele,

é a cova que eu mesma cavo.

 

às vezes eu gostaria que fôssemos algo mais,

mas acordo e me lembro

que você é você

e eu sou eu.