Há qualquer coisa em ti
que me desarma sem sequer tocar-me.
Talvez seja esse pequeno desenho
que repousa sobre tua pele,
esse fragmento de céu
que parece ter esquecido de voltar para casa.
Eu o imagino quieto sob tua roupa,
enquanto tua voz atravessa a distância
e deixa alguma coisa minha
fora do lugar.
É estranho.
Tu falas
e, de repente, o quarto parece maior,
como se as paredes recuassem
só para que eu pudesse sentir um pouco mais de perto
aquilo que não posso tocar.
Teus cabelos nunca permanecem iguais
na minha memória.
O vento os inventa de novo
cada vez que penso em ti.
Há tardes que chegam diferentes.
O café esfria sobre a mesa,
a luz demora nos móveis,
e eu fico olhando para o nada,
como quem espera
que o nada me devolva alguma coisa.
O dia parece guardar
uma pequena parte tua.
Porque, às vezes,
quando tudo escurece
e eu me lembro daquele desenho sobre tua pele,
penso que já não preciso
ter tanto medo do escuro.
Afinal,
há um sol em algum lugar de ti.