Fica quieto, meu monstro.
A noite já tem donos demais.
Talvez sejas um amuleto
de navio que nunca chegou.
Talvez eu seja o naufrágio
que te carrega no bolso.
Sob o freixo, a loucura brota.
Dia após dia.
O sol nos cura — ilumina as feridas.
Que sejas nuvem.
Que sejas sonho.
Que sejas o que o céu esquece.
Eu já aproveitei.
De lado.
Como quem foge educadamente.
Para de me enviar criaturas
com pernas humanas.
Não há mais sapatos.
O teto é baixo demais para deuses.
O pássaro na bota
aprende a tristeza.
À noite, foge para a sacada.
Olha os planetas desfilando
como quem assiste ao próprio funeral.
Proíbam o desfile.
O monstro não dorme.
Eu também não.
O espelho me liga.
Sem bateria.
Da praia.
Fala com os dentes no aparelho.
Não sei se devo ter medo.
Tenho.
Um vampiro aos meus pés.
Um elixir que não salva.
Cinzas sob as janelas.
E o rádio repetindo:
uma mulher nunca pode ter
muito vinho branco,
muitos livros,
muita munição.
A vontade é isso:
acordar.
E ainda assim, escolher—
ou morrer.
O Monstro sob a Cama Sonha com o Tempo
de Ayalah Verônica Berg