V. Pacheco

Poesia favorita

Minha poesia favorita

é a do cotidiano.

Aquela que, no meio da correria,

da bagunça,

você olha

e então a vê.

 

Aquela que está também na organização,

nas coisas ajeitadas em seus devidos lugares.

Ela aparece,

então você a vê.

 

Tão bela,

tão delicada,

mas às vezes triste.

 

Minha poesia favorita

é a do cotidiano.

Aquela que, no meio do caos,

do barulho,

você escuta um som,

então a ouve.

 

Aquela que está também

no silêncio,

na tranquilidade.

Então ela sussurra.

 

Tão serena,

tão calma,

mas às vezes agitada.

 

Minha poesia favorita

será sempre a que está

nas entrelinhas dos dias que passam,

nos versos que se debruçam no pêndulo do relógio,

no fio vermelho e tênue da vida

que se estica

e irrompe em amor,

ódio,

lutas,

tréguas,

risadas,

infortúnios,

 

e se rompe

na ponta do precipício.

 

Aí, nos lançamos,

entregando-nos à morte,

que vem.

Inevitavelmente, vem.