Paulo Silva

O poema

O poema é o que ocorre depois do amor, 

Ou aquilo que não se diz o que se sente.
Ele é o desejo que não se mostra,
Uma aposta incerta e pessoal;
Um dizer confessável à quem tem ouvidos, lido
Por juízes de nenhuma moral. 

O poema nasce na raiz de uma revolução,
Na flor da guerra e nos corações,
Em palavras de ordem e regresso, 
No pedido de rendição.

O poema é uma reconciliação 
Àquela saudade que se agita no peito 
Feita tão somente de imagens 
Além da dor, da dúvida ou do desespero.

O poema nasce quando se morre,
Ele acontece quando nada mais pode.

Metamorfoseai-vos sentimentos abundantes,
Encham-se de cor e tomem forma 
Tinjam o papel de novas memórias 
A crescer no tempo 
Para além das gerações vindouras.

Não havendo outra forma de exagerar 
O que se quer falar e pensar da anatomia 
Da curiosidade da vida 
Ao todo que se farta.

Enquanto se vive 
Aqui, o poema acaba.