Todos já têm seu par, e eu sobrei,
No canto esquecido de alguma estação;
Enquanto o mundo encontrou quem amei,
Eu fiquei conversando com a solidão.
Os anos passaram sem pedir licença,
Levaram abraços, desejos, calor;
E aquilo que um dia chamei de esperança
Virou apenas lembrança de algum amor.
Na meia-idade, aprendi o silêncio,
A cama vazia, o quarto fechado;
Meu corpo conhece o peso do tempo,
Meu coração, o destino calado.
A castidade deixou de ser escolha,
Foi se tornando um costume sem voz;
O desejo dormiu atrás de uma porta,
E ninguém mais veio bater por nós.
Não há mais espera, nem sonho secreto,
Nem passos na rua que façam parar;
O telefone permanece quieto,
E a noite parece nunca terminar.
Vejo casais caminhando na praça,
Mãos entrelaçadas, promessas, carinho;
E sigo o destino, perdeu-se a graça,
Como quem nasceu para andar sozinho.
Talvez eu tenha chegado tarde demais,
Quando os melhores caminhos passaram;
Alguns encontraram seus felizes finais,
Enquanto os meus nunca começaram.
Não espero mais que alguém apareça,
Nem faço pedidos olhando o luar;
Há sonhos que morrem antes que a gente
Consiga sequer aprender a sonhar.
E assim vou vivendo, sem grande revolta,
Sem esperar que a vida mude de cor;
A solidão já conhece minha porta,
E eu já conheço o seu velho sabor.
Todos já têm seu par, e eu sobrei,
Sem braços, sem beijos, sem ter aonde ir;
Talvez esta seja a vida que ganhei:
Aprender a estar só até deixar de sentir.