Fábio Alves Leão

SOBREI

Todos já têm seu par, e eu sobrei,

No canto esquecido de alguma estação;

Enquanto o mundo encontrou quem amei,

Eu fiquei conversando com a solidão.

 

Os anos passaram sem pedir licença,

Levaram abraços, desejos, calor;

E aquilo que um dia chamei de esperança

Virou apenas lembrança de algum amor.

 

Na meia-idade, aprendi o silêncio,

A cama vazia, o quarto fechado;

Meu corpo conhece o peso do tempo,

Meu coração, o destino calado.

 

A castidade deixou de ser escolha,

Foi se tornando um costume sem voz;

O desejo dormiu atrás de uma porta,

E ninguém mais veio bater por nós.

 

Não há mais espera, nem sonho secreto,

Nem passos na rua que façam parar;

O telefone permanece quieto,

E a noite parece nunca terminar.

 

Vejo casais caminhando na praça,

Mãos entrelaçadas, promessas, carinho;

E sigo o destino, perdeu-se a graça,

Como quem nasceu para andar sozinho.

 

Talvez eu tenha chegado tarde demais,

Quando os melhores caminhos passaram;

Alguns encontraram seus felizes finais,

Enquanto os meus nunca começaram.

 

Não espero mais que alguém apareça,

Nem faço pedidos olhando o luar;

Há sonhos que morrem antes que a gente

Consiga sequer aprender a sonhar.

 

E assim vou vivendo, sem grande revolta,

Sem esperar que a vida mude de cor;

A solidão já conhece minha porta,

E eu já conheço o seu velho sabor.

 

Todos já têm seu par, e eu sobrei,

Sem braços, sem beijos, sem ter aonde ir;

Talvez esta seja a vida que ganhei:

Aprender a estar só até deixar de sentir.