Eu, quando pequena, era ruim de escola. Ligava para isso? Não, ligava para muita coisa, como quando teria tempo para brincar com as bonecas que eu fazia com cascalho e folha de bananeiras, com quando mãe traria aquela trufa gostosa de fim de expediente que patroa dava, ou quando pai chegaria, com mais livrinhos das minhas amigas bonitas, que tinham sapatos de cristal e cabelo demais pra cuidar, [achava um absurdo de Rapunzel, gastava horrores com shampoo!... talvez por isso nunca me visitou, eu não tinha shampoo.]
ligava para isso não, mas tinha uma coisa que eu realmente me importava: a chinela de mãe! que brava ficaria quando percebesse: eu era ruim de escola. Esse era um problema. Pai disse certa vez: problema a gente resolve, mas não os de matemática, [Esses eram difíceis demais].
Sabendo que eu tinha problemas e que problemas eu tinha que resolver, lembrei do que tio falou certa vez: problema a gente resolve no bar. Mais velho, mais esperto, [provavelmente sabia dividir e multiplicar.] então decidi tomar partido de mim: eu fui para o bar.
Sentei-me na beira-ponta da mesa de madeira do bar seu Antônio, [nem ligou ele] coloquei caderno de folha rosa arriba da mesa e esperei que meu problema fosse resolvido.
Ei, Menina. Que faz aqui?!
Estou esperando o bar resolver meus problemas.
O homem era engraçado, parecia um amigo meu, aquele dos livros de meu pai, de larga pança e barba branca. [Que coisa, não? está no bar… talvez não tivesse dinheiro para todos os bonzinhos naquele ano, não teria de se preocupar comigo, sou mal de escola].
Ele também deve ter me achado engraçada, pois riu.
Bar só resolve problemas de gente grande.
E qual o preconceito dele com gente pequena?
O homem pareceu pensar, disse então:
Mostra seu problema, eu tento ajudar.
São problemas de outros, esse, por exemplo, é problema de João. O que me interessa saber porquê João precisa dividir seus bombons para quatro amigos? Seria mais fácil comê-los TODOS!
Oras, Menina. E se um dia você tiver de dividir seus próprios bombons? Vai dizer que não sabe? A gente compartilha o que sabe.
O tempo passou, 1, 2, 3, 4 e…
Me vê a 5° dose!
Todos os dias, ali, na mesa de madeira, Senhor Bar mostrava-me como resolver meus problemas. À medida que o tempo passava, sua mente ficava mais turva. Passava tempo, eu não mais tão pequena, já quase podia entendê-lo, sabia quando se confundia. Entre um ano e outro, um copo e outro, por isso, sabia que já era hora de ir pra casa quando:
Na-não, digo… refaça essa parte, vamos para a sétima.
O senhor quer dizer: sexta!
Sim, sim! Certamente, me vê a sexta dose!
Daí cresci, aprendi a resolver meus problemas, ou quase. Hoje resolvo outros, mas é um escândalo de toda gente nas festas de família quando tios, daqueles grosseiros, vira e mexe perguntam-me:
E você, moça? Como é que escolheu esse problema de carreira, ein?
Aprendi com o Bar, lá resolvi os meus, esse problema é solução para gente pequena, eles tem chance de crescer.
Saudações ao professor que no Bar ficava e me ensinou multiplicação, não sei por onde anda, mas espero que não tenha passado da décima dose.