Ricardo Maria Louro

Beija-me Avó!

BEIJA-ME ... AVÓ!

 

Partiu devagar ... não houve despedida,
algo de mim partiu no seu regaço,
minha casa inteira ficou tão comprida
e eu confuso no passar de cada passo...

 

A saudade sentou-se comigo à mesa,
devorou-me o coração e tudo tão igual,
o tempo, apenas trouxe a incerteza
e fez da distância um quarto sem portal...

 

Busquei-te nas coisas que deixaste:
em cheiros, cantos, em cada lugar
e nunca mais te ouvi, não falaste
porque há véus que a morte não pode levantar...

 

Já não há voz que me deixe tão seguro
nem mão que me toque com aquela paz,
a alma bate à porta e só há escuro
chamando como me chamavas em rapaz...

 

Fui neto d\'uma avó que nunca me abandonou
antes do mundo me ensinar tanto desdém,
cabia inteiro no seu colo, que me embalou
e a sua voz fazia-me sentir tão bem...

 

Agora sigo sem norte nem certeza,
com metade de mim virada para trás,
porque há partidas que deixam sobre a mesa
tudo o que fomos e ninguém devolve mais ...

 

Mas se há lugar depois da ausência,
se a morte for somente outra estação,
se as almas se reconhecerem na distância
e o amor souber vencer a separação,

 

então, espera por mim onde a luz não finda
e o tempo não nos saiba envelhecer
que levarei o mesmo abraço e talvez sinta
que afinal era possivel voltar-te a ver...

 

E quando enfim se calar toda a distância,
quando já não houver véu entre nós dois,
não digas nada — guarda a \"nossa\"  infância,
abre os braços como abriste tantas vezes e ... depois ...

 

... eu pequeno, outra vez, sem rumo nem idade,
sem mundo, nem pressa, sabendo o que fazer,
hei-de correr para ti vencendo esta saudade ...
e Beija-me Avó, hei-de te dizer!

 

Ricardo Maria Louro
2 longos Anos volvidos sobre a partida para Deus da querida Avó Clarisse.