eu ia me matar hoje.
essa era minha maior certeza desde de o momento em que me deitei ontem até o segundo em que me levantei hoje.
eu estava decidida.
eu ia me matar hoje.
eu ia ser mais uma de muitas outras pessoas que se mataram em um dia cinza e chuvoso da primavera,
da mesma forma que sou apenas uma pessoa extremamente melancólica e sem muitos sonhos e perspectivas.
minha vida é assim, cinza e chuvosa como quase todos os dias da primavera.
eu ia me matar hoje.
sinceramente ainda não tenho certeza se não me matarei hoje.
eu ia, eu vou, eu me matei hoje.
senti tanto frio, estava tão gelada, meus olhos já não ficavam em mais nada. por toda manhã, era um defunto.
“o que te salvou?”
uma simples frase: “faça a prova com calma, fazer ela rápido não vai fazer com que seus problemas também se resolvam de forma rápida.”
ele acertou.
parei, pensei, analisei e como um grande estalo acordei.
já não sentia mais frio, meu corpo já não tremia e meus olhos já não lacrimejavam, estava viva.
eu ia, de fato, me matar hoje.
é irônico que em seguida palavras de uma pessoa que amo muito me cortaram o coração, palavras de uma pessoa que devia também me dar esperança e vontade de viver.
mas eu não morri.
eu não me matei.
não vou permitir ser tentada em pleno mês de setembro, em plena primavera, um mês antes de meu aniversário de dezoito anos.
não serei egoísta de deixar uma vida inteira que ainda não escrevi em branco.
você não vai me matar hoje, não importa o quanto você faça as pessoas que amo insistirem em minha morte, na morte dos meus sonhos, das minhas crenças, das minhas felicidades.
“do pó viemos, para o pó voltaremos”
hoje não.
hoje sou carne.
se amanhã morrerei ninguém sabe, nem mesmo eu.
eu vou sentir tudo o que tenho para sentir.
amor, raiva, ódio, vou socar quantas paredes quiser, vou gritar o quanto precisar, mas chega de chorar por uma morte que não aconteceu e que não acontecerá tão cedo.
tentem o quanto quiser,
eu não morro hoje.
eu ia me matar hoje,
mas não me matei.
eu ainda estou angustiada,
a vontade de ir embora não passou,
a vontade de sentir uma dor momentânea e me livrar de tantas dores eternas não passou.
eu ia me matar hoje,
mas a certeza que tenho é que não vou nem que me obriguem.
eu não morro hoje.
se for pra morrer, terão que me matar.
porque hoje, nesta tarde de primavera, eu não morro.
eu ia me matar hoje,
mas não me matei.
estou viva.
ainda quero me matar hoje, mas não vou.
não, a partir de hoje eu me obrigo a viver, mesmo não querendo.
vou viver uma vida boa e feliz independente se estão torcendo por mim ou contra mim.
eu vou lutar e vou ficar até que eu tenha que ir embora, enquanto isso
viverei como se fosse minha primeira vida, mesmo não sendo.
e a todos que algum dia lerem isso,
vocês também devem viver mesmo não querendo,
hoje sou eu quem te digo:
faça com calma, fazer rápido não vai fazer com que seus problemas também se resolvam de forma rápida.
viva.