Sasha Accioly

Sonho

Sonhei com um lugar que nunca existiu.

Ainda assim,
quando acordei,
senti como se tivesse deixado alguém para trás.

Talvez não fosse um lugar.

Talvez fosse eu.

Ou melhor,
uma parte de mim que há muito tempo
havia aprendido a permanecer em silêncio.

O sonho não existia,
mas alguma coisa nele existia em mim.

Era a infância que não sabia dizer o que queria,
a juventude que guardou desejos
antes mesmo de encontrar palavras para nomeá-los.

Era aquilo que ficou reprimido,
não necessariamente por tristeza,
mas porque algumas vontades
simplesmente não encontraram espaço
para nascer no mundo desperto.

Então sonhei.

E, enquanto dormia,
minha criança interior voltou.

Não precisei procurá-la.

Ela estava lá

E eu a deixei viver.

Por uma noite,
não houve vergonha,
medo,
limites

ou a necessidade de compreender.


Havia apenas a felicidade absurda

de estar exatamente onde eu queria estar,
sem sequer saber que procurava aquele lugar.

Por isso eu não queria acordar.

Não porque o sonho fosse perfeito,
mas porque, dentro dele,
alguma coisa em mim finalmente estava inteira.

Quando despertei,
nada mais estava...

nunca esteve.

No entanto, a Sasha criança havia voltado

E talvez seja isso que ainda me comove.

Por algumas horas,
eu não sonhei com um lugar.

Sonhei com uma parte de mim
que a vida havia feito adormecer.