Miguel Espinoso

País das Maravilhas - A Carta de um Analfabeto Emocional

Vivo eu comigo mesmo, em meu país das maravilhas,

onde o dia começa quando o sol repousa em berço 

esplêndido.

 

Canto em completo silêncio;

só há espaço para mim e meu

lamento.

 

Até sei ler e escrever, mas quando

se trata de abrir a boca para dizer

aquelas três palavras, torno-me

analfabeto emocional. 

 

Sou aquela criança solitária

que brinca consigo mesma.

Sou aquele amante solitário, apaixonado

pela lua - distante do seu amor, embora tanto

ame.

 

Sou um homem deslocado, meu próprio

advogado, defendendo um cliente tolo

e excêntrico; as vezes diabo.

 

Sou cativo das minhas próprias palavras;

Verbalmente articulado, emocionalmente gago.

 

Vivo em um ermo rude e elementar, quase que por ofício.

Escrevo cartas em que eu sou remetente e destinatário 

 

Sou caça e presa; leão e lebre

poeta e poesia; efêmero amor, duradouro

rugido de dor

 

Sou aquele que persegue, e o que tem fugido.

Monto para mim mesmo minhas próprias

armadilhas, em meu país das maravilhas.